Pais querem respeito a ritmo do aluno e espírito crítico

7 de Outubro de 2008 @ 10:41 - Pena
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Para metade dos entrevistados, proximidade de casa é fundamental

Escola boa é aquela que respeita o ritmo de aprendizagem do aluno, incentiva o desenvolvimento do espírito crítico e oferece uma formação acadêmica de qualidade. Esses foram os critérios mais citados por 50 profissionais de destaque em diversas áreas de atuação que contaram à Folha como escolheram a escola de seus filhos.

Mas de nada adianta a escola ser excelente se for longe de casa, na opinião de 24 entrevistados. “Uma criança não pode ficar uma hora e meia em um carro para ir ou voltar da escola. É desumano”, diz o arquiteto Arthur Casas.

Oito entrevistados, a maioria deles com filhos matriculados na educação infantil, procuram ainda um espaço de “acolhimento”, que funcione como extensão de casa. “Pensei em uma escolinha que permitisse ao meu filho descobrir o mundo com afeto”, diz o escritor Milton Hatoum.

Outra preocupação é quanto ao relacionamento dos filhos com colegas e professores. Dois entrevistados chegaram a vivenciar experiências de violência escolar, física ou psicológica, contra os seus filhos -fenômeno que se tornou mais conhecido pelo nome de “bullying”.

No contexto brasileiro, em que as melhores escolas tendem a ser também as mais caras e elitizadas, 13 pais demonstraram preocupação com a falta de diversidade social no espaço escolar. “Não quero que minha filha cresça pensando que a vida é um shopping center”, afirma a filósofa e apresentadora de TV Márcia Tiburi.

Para a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, a homogeneidade social é “um pecado capital” da escola privada. “Reforça a segregação, a manutenção de um padrão de desigualdade, de apartheid”, diz ela.
Para evitar essa armadilha, muitos pais procuram escolas em que predominam valores éticos compatíveis com os seus. Depois de muita pesquisa, a atriz Débora Duboc conseguiu encontrar uma instituição que, na sua opinião, oferece uma visão mais apurada da realidade brasileira. “Gosto da possibilidade de meus filhos entenderem que o mundo é feito de muitas camadas sociais e que nisso está guardada, muitas vezes, uma injustiça profunda.”

Outros nove entrevistados citaram o ensino em idioma estrangeiro como um critério essencial para quem quer fazer carreira fora e, também, como no caso do piloto Rubens Barrichello, para fugir da violência das cidades brasileiras.
Este especial traz ainda um quadro que ensina a calcular se as despesas com a educação cabem no seu bolso e explica as mudanças no ensino fundamental, que passou a ter nove anos.
Se, depois de tudo isso, você ainda estiver aflito com as suas dúvidas, vá até a página 14 e aproveite para relaxar com a conversa bem-humorada entre duas mães “mothernas”, as escritoras Juliana Sampaio e Laura Guimarães.

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Educadores dizem que proposta pedagógica é o mais importante

Escola deve explicar com clareza aos pais as metodologias que são utilizadas

Só na capital paulista, há mais de mil escolas particulares. Qual delas é a melhor para seu filho? A resposta, afirmam os educadores, deve se basear tanto em questões pedagógicas quanto práticas.
“A proposta pedagógica é o fator mais importante. Os pais têm de entender direitinho o que a escola está apresentando, mesmo que a família não conheça as diversas metodologias e opções”, afirma Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP.
“O colégio precisa traduzir os termos e as idéias, para que o pai saiba se o projeto se encaixa no que ele espera para seu filho. Deve-se desconfiar dos que não explicam corretamente”, diz.

O ideal, sugerem os especialistas, é que os pais visitem a escola, junto com o filho, e conversem com um responsável. Além disso, também ajudam conversas com pais que já têm filhos no colégio avaliado.
“Tudo isso é importante para que a família tenha informações tanto sobre a proposta quanto sobre a sua execução”, diz Ana Maria Di Grado Hessel, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP.
“Hoje em dia, muitas escolas utilizam jargões bonitos, como construtivismo, mas na prática isso é só marketing. Na verdade, usam apenas os métodos tradicionais”, afirma Hessel.

Caso seja impossível a conversa prévia com famílias cujos filhos já estudam na escola, Hessel recomenda que os pais “se inteirem mais intensamente” do primeiro ano letivo da criança no colégio.
Além da análise da proposta pedagógica, a recomendação dos educadores é que se verifique o perfil dos professores -como são escolhidos e qual a formação deles.

A presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto, cita ainda outros fatores educacionais a serem levados em conta: “Na identificação das escolas, devem ser considerados tempo de estudo, relação com os professores, cobranças e formação de atitudes. Os aspectos devem ter uma sintonia com a expectativa familiar do desenvolvimento de seu filho”.

Aliados aos aspectos pedagógicos, os pais devem analisar também fatores práticos. Um deles é o tempo que o aluno demorará para chegar ao colégio.
“Para quem mora em São Paulo, distância tornou-se um problema, devido ao tempo que a criança fica no trânsito. Dificilmente não haverá uma boa escola no próprio bairro ou na vizinhança próxima”, diz a psicopedagoga Maria Irene Maluf.

Outro ponto a ser considerado é a segurança oferecida pelo colégio -tanto para os estudantes quanto para os pais que levam seus filhos.

As mensalidades também são cruciais, dizem os educadores. Isso porque, se a família não conseguir pagar as parcelas, a troca de colégio pode ser prejudicial ao estudante.

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Geneticista optou por colégio bilíngüe, com “maior visão de mundo”

Para Lygia da Veiga Pereira, escola deve despertar curiosidade

A geneticista Lygia da Veiga Pereira, 41, professora da USP e responsável pelo primeiro camundongo transgênico do Brasil, queria para as filhas Gabriela, 5, e Maria, 3, uma escola que oferecesse uma percepção ampla do mundo e que provocasse a vontade de conhecê-lo.

Depois de muitas dúvidas, a opção foi por uma instituição britânica e bilíngüe. Para Lygia, o inglês é importante para abrir logo cedo o acervo do conhecimento mundial. “O valor principal de uma boa escola é fazer despertar a curiosidade das crianças e mostrar que o mundo é grande, que há diversidade de experiências, de gente e de culturas”, diz. “Quero que elas saibam questionar.”

No início, Lygia ficou insegura quanto aos possíveis impactos produzidos por uma educação em um idioma não-nativo -e diferente daquele usado no contexto cultural em que as meninas estão imersas. “Ainda me angustia o fato de que elas serão alfabetizadas em inglês.” Mas ela acabou por concluir que as metodologias atuais, baseadas em fonética, funcionam.
“O mundo fica, de início, maior e mais transitável”, justifica. “Quando eu viajar ao exterior, elas vão poder ir ao cinema, circular, conhecer coisas diferentes.”

Na opinião de Lygia, a experiência da diversidade deve acontecer na própria escola, em um ambiente que reúna formas diversas de ser e pensar, independentemente do perfil socioeconômico dos alunos. “Uma desvantagem da escola é não ser muito grande. Queria que fosse grande o suficiente para ter várias tribos.”

Na hora da escolha, a pesquisadora, que é neta do editor e livreiro José Olympio (1902-1990), recebeu indicações favoráveis de conhecidos que já tinham filhos na escola e acompanhou a experiência de sobrinhos que estudavam lá há mais tempo. Finalmente, pesou na decisão a localização, próxima de casa. A pesquisadora leva as crianças à escola a pé.

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Chef acha importante que escola ensine a conviver com diferenças

Para Benny Novak, diversidade conta tanto quanto o método de ensino

Ao procurar um local para matricular seus filhos, Sofia, 5, e Fernando, 3, o chef Benny Novak, 40, proprietário dos restaurantes Ici Bistrô e Tappo Trattoria, optou por uma escola perto de casa e com a preocupação de ensinar os alunos a conviver com as diferenças.

Novak, que é judeu, fez questão de escolher uma instituição sem caráter religioso. “É superimportante que eles tenham contato com todas as classes sociais e religiões para aprenderem a respeitar as diferenças. Têm inclusive colegas com síndrome de Down, o que acho importante não só para nossos filhos mas para que essas crianças possam participar.”

O fato de a escola não comemorar datas como o Dia dos Pais e das Mães o encantou. “Assim eles não estimulam o consumismo e não colocam as crianças que não têm pai ou mãe numa situação ruim.”

Por fim, Novak buscava uma escola que se preocupasse em relacionar o conteúdo ensinado a experiências reais. “Minha filha está sendo alfabetizada enquanto elabora o projeto de um restaurante.

Os alunos vão aprender a servir, anotar pedidos, ler o cardápio. E eu vou ajudá-los, assim como outros pais vão às classes falar sobre a cultura de outros países onde moraram ou sobre a profissão que exercem”, afirma.

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Gastos com educação vão além da mensalidade

Transporte, alimentação e material são outros itens que implicam custo

Uma educação de qualidade exige investimento, mas não pode levar os pais a contrair dívidas. Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) e colunista da Folha, recomenda que os gastos com o ensino dos filhos não superem 10% da renda mensal da família.

A mensalidade também não deve ser a única preocupação dos pais: transporte, alimentação, uniforme e material didático devem estar no papel na hora dos cálculos.
“Quanto menor a série da criança, maior o gasto com complementos”, afirma Fábio Gallo Garcia, professor de administração da Fundação Getulio Vargas e autor de “Como Planejar a Educação”.

Uma dica para economizar é procurar saber quais serviços estão incluídos na mensalidade. Atividades extracurriculares, como inglês ou natação, podem ficar mais baratas caso o colégio mantenha convênios com empresas que oferecem esses cursos. Mas é preciso avaliar se elas serão interessantes para a criança.

A compra de materiais também merece atenção. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), o preço dos livros didáticos aumentou 9% em um período de 12 meses. “Se você for racional, vá à loja sozinho, faça muita conta e compre só o essencial”, aconselha o professor Garcia. “Mas levar o filho para comprar junto pode ser também uma boa lição de economia.”

Na hora da matrícula, a dica é redobrar a atenção. “Ler todo o contrato é fundamental para conhecer as disposições gerais sobre o serviço que é cobrado”, afirma Maíra Feltrin, advogada do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor).

O Código de Defesa do Consumidor proíbe a cobrança de valores acima da anuidade estabelecida em contrato e determina que o reajuste só seja feito após um ano da fixação das parcelas -geralmente, no fim do período letivo.

Em caso de aumento, o novo valor deve ser divulgado no mínimo 45 dias antes do prazo para a matrícula.

Se houver inadimplência, a escola não pode impedir o aluno de freqüentar aulas ou fazer provas. No entanto, pode recusar a matrícula no fim do ano.

Os pais podem responder judicialmente pela dívida, mas a inclusão do nome do devedor em cadastros como o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) é uma prática abusiva. “Isso pode impedir que o aluno ingresse em outra escola. E a educação é um direito”, diz a técnica do Procon de São Paulo Márcia Oliveira. Caso ocorra essa situação, os pais devem denunciar a escola nas entidades de defesa do consumidor.

De acordo com dados do Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo), 11,43% dos pais não estavam em dia com o pagamento da escola de seus filhos em agosto.

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Fundamental de 9 anos já existe em quase toda a rede particular

Pouca coisa muda para alunos dessas escolas, segundo sindicato que as representa em SP

Desde 2006, escolas de todo o país vêm alterando a estrutura do ensino fundamental, cuja duração passou de oito para nove anos. No Estado de São Paulo, embora não haja números oficiais, o Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo) calcula que praticamente todas as instituições particulares já tenham adotado a medida.

Para Marlene Schneider, coordenadora pedagógica do Sieeesp, pouca coisa muda para quem tem filhos na rede particular. “O que o aluno antes via no último ano da pré-escola agora vê no primeiro ano do ensino fundamental”, diz.

O presidente da Câmara de Educação Básica do CNE (Conselho Nacional de Educação), César Callegari, afirma que a proposta é que, com a mudança, seja criado um “ciclo de alfabetização” entre os seis e os oito anos de idade.

Segundo orientação do CNE, as escolas devem estar preparadas física e pedagogicamente para atender às particularidades do desenvolvimento de crianças de seis anos.
A Secretaria Estadual da Educação de São Paulo afirma que a mudança será implantada a partir de 2009, pois as escolas ainda estão sendo preparadas para receber crianças menores. O mesmo ocorre na rede municipal, que ainda não implementou a medida.

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Escola deve saber como combater o “bullying”

Caso contrário, pode ter de indenizar aluno que sofreu violência em classe

Em decisão recente, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal obrigou, pela primeira vez, uma escola a indenizar um aluno agredido pelos colegas. Para o pediatra Lauro Lemos, editor do site Observatório da Infância, a sentença deve incentivar o combate ao “bullying”.

Como uma medida como essa “dói no bolso”, diz Lemos, escolas que ainda escondem o problema podem passar a adotar ações preventivas, com medo de serem processadas.
Por “bullying”, entende-se a violência física ou psicológica entre colegas, repetitiva e sem razão aparente. Os pais devem ficar de olho se a escola está preparada para enfrentá-lo. “Escola que desconhece o assunto ou que diz que lá isso nunca aconteceu não é boa”, avalia o pediatra. “As boas são as que fazem muitas campanhas com os alunos.”

O presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-SP, Ricardo Cabezón, sugere aos pais que observem se o regimento tem mecanismos de apuração e defesa, em casos de “bullying”, e se há canais para denúncias, como “uma caixa para bilhetes ou uma página na internet, que aceite comentários anônimos”.

O filósofo Renato Janine Ribeiro conta que o filho Rafael, 7, teve uma “passagem dura” ao deixar a educação infantil para ingressar no ensino fundamental, com turmas maiores e vários professores. Mesmo sofrendo “bullying”, Janine avalia que o menino recebeu pouca atenção da escola. “Ele é educado, e os outros meninos, apesar do dinheiro que as famílias têm, são grosseiros.”

A escritora Adriana Falcão viveu “um ano de terror”, quando a filha foi vítima de “bullying”. “Ela vomitava e não queria ir à escola.” Por isso, a escritora hoje considera, “mais importante do que a metodologia de ensino, a forma como a escola lida com relacionamentos”.

A escola condenada, em agosto, pelo TJ-DF foi o Centro de Ensino de 1º Grau Oswaldo Cruz, de Ceilândia, que terá de pagar R$ 3.000 à vítima de “bullying”, o filho da professora Denise, 39 (nome fictício).

A professora conta que o garoto, então com sete anos, foi várias vezes agredido ao longo do ano de 2005.

A sentença se baseou no Código de Defesa do Consumidor e apontou “falha na prestação do serviço”. O dono do colégio, Wilson Ferreira Gomes, diz que houve falha na defesa -o processo correu à revelia-, mas que, mesmo assim, optou por não contestar a sentença.

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Sem tempo, pais recorrem à ajuda de consultores, que avaliam até cardápio

Psicólogos e pedagogos traçam perfil da criança para listar opções de colégios

Falta de tempo e de segurança para tomarem sozinhos uma decisão que consideram determinante na formação dos filhos estão fazendo com que pais procurem ajuda profissional para escolher a escola. Psicólogos e pedagogos têm se especializado em dar consultoria nessas situações.
“A procura por esse serviço aumentou com a quantidade e a diversidade de escolas e também com a insegurança dos pais sobre como educar. Muitos chegam aqui sem saber como orientar e impor limites aos filhos, o que se reflete na hora de escolher a escola”, diz a psicopedagoga Silvia Amaral de Mello Pinto, coordenadora da Elipse Clínica Multidisciplinar.

Em linhas gerais, o trabalho do consultor começa com uma reunião com a família para traçar o perfil dos pais e da criança. “Procuramos detectar quais são os valores do casal e chegar a um denominador comum entre eles [o pai e a mãe], porque muitos têm divergências entre si”, diz Silvia.

Em seguida, são listados os critérios considerados essenciais pelo casal e outros fatores em ordem de importância. A terceira etapa consiste em visitas às escolas previamente selecionadas, com ou sem o acompanhamento da família.
“Em cada escola, preencho uma ficha na qual avalio desde o tipo de piso e de brinquedos até a higiene e o cardápio oferecido”, diz a psicóloga e pedagoga Cristiana Teixeira, especializada em educação infantil. No último encontro, os pais vão para casa com os nomes de algumas escolas que se encaixam no perfil dos filhos para chegarem a uma conclusão.

Embora sirva de orientação para os pais, a consultoria profissional não oferece soluções mágicas -para Silvia, “é uma parceria na qual a opinião dos pais deve prevalecer”.
Segundo ela, uma das falhas que os pais costumam cometer é basear os seus critérios nas experiências vividas durante a sua infância. “O mais importante é que eles façam a escolha baseados no que eles são agora e em como seus filhos realmente são”, afirma Silvia.

O arquiteto Arthur Casas buscou ajuda especializada antes de escolher o colégio da filha Nina, 4, mas ficou decepcionado com o resultado. “Não adiantou nada. A psicóloga fez uma indicação que não combinava. A escola nem era bilíngüe, como eu queria”, conta.

Fonte Folha de São Paulo de 28/09/2008

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